sexta-feira, 29 de julho de 2011

Projeto Axé - 21 anos de história

O Projeto Axé completou  21 anos em 1º de Junho deste ano.
Acompanhem esta série de 3 vídeos que contam um pouco de como tudo começou...

Acessem os vídeos:








 


















sexta-feira, 15 de julho de 2011

Correio da Bahia - 15/07/2011

Eles conseguiram escapar dos números letais da violência


Juan Torres e Victor Uchôajuan.torres@redebahia.com.br
victor.uchoa@redebahia.com.br

Luciana Xavier dos Santos, 27 anos, começou com 13 irmãos. Hoje só tem dez. Três foram assassinados. O pai também. Outros dois sobrinhos, idem - estes pela polícia. Até  aí, nada muito incomum em bairros pobres da capital baiana. 
A diferença é que Luciana, mesmo nascida e crescida cercada de violência e violação de direitos básicos por todos os lados, resolveu nadar. E, quando enxergou uma tábua de salvação, agarrou-se a ela. Graças a isso, conseguiu sair da ilha de seres humanos normalmente invisíveis e evitou engordar as estatísticas de vítimas de violência.

Depois de passar anos da infância na rua, Luciana se formou em design de moda e hoje gerencia as atividades de cerca de 100 jovens do Projeto Axé; ela procura ser exemplo
Ela tinha menos de 10 anos quando começou a trabalhar. Morava no Nordeste de Amaralina - onde a família vive até hoje - e, no fim da feira da Chapada do Rio Vermelho, com sua parca força infantil,  ajudava os vendedores a desmontar suas barracas. Como pagamento, recebia uns restos de fruta e verdura. 

O segundo trabalho foi como pedinte. Aos 10 anos, já se aventurava até os semáforos da Pituba. “Ainda hoje sonho às vezes que estou na sinaleira, pedindo. E acordo assustada. Penso: ‘Meu Deus! Ainda bem que era só um sonho. Aliás, um pesadelo’”, diz. 

Em 1997, aos 13 anos, Luciana conheceu o Projeto Axé e viu nele uma chance de sair da rua. “O projeto me fez ter vontade de seguir uma carreira. Eu terminei a escola e hoje sou a única da família que chegou à universidade”. Ela, que começou nas oficinas do projeto e hoje gerencia a unidade do Pelourinho, formou-se em Design de Moda na Faculdade da Cidade.

Perdas Três irmãos, porém, não chegaram a ver esse sucesso. Depois de, com 2 anos de idade, perder o pai - cobrador de ônibus morto num assalto -, Luciana perdeu o primeiro irmão em 1998. O rapaz, de 24 anos, era traficante e foi morto por bandidos no Arenoso.
Dois anos depois, outro irmão, de 22 anos, que morava em Natal e tinha vindo passar um feriado com a família, foi executado perto de casa. Ele não tinha envolvimento. “Foi morto pelo simples fato de ser irmão de outro irmão meu”, conta Luciana. Esse outro irmão acabou morto um ano depois, também por rivais. 

Em vez de esmorecer, Luciana só ganhou forças. “Eu vi a necessidade de crescer, de me desenvolver. Tinha que me envolver nas questões políticas e contaminar minha família. Até hoje tento transmitir a meus irmãos e a quem posso a necessidade de procurar uma arte como forma de libertação”, explica ela. 

A jovem ainda conta que dois sobrinhos, de 14 e 16 anos, foram mortos por policiais durante uma operação no Nordeste em julho de 2009. “Eles se esconderam na casa de uma senhora. A polícia entrou e matou os dois, achando que estavam fugindo, mas nenhum deles tinha envolvimento”, diz ela. 
Se ela tem rancor da polícia? “Todos são vítimas e algozes nesse sistema. A polícia tem que entender que reprimir o tráfico é uma consequência. O tráfico não é causa de nada. Ninguém opta por ir para o tráfico. O tráfico é o que sobra para essas pessoas”.


Homicídios deixam marcas em todo o bairro “Quando meu  irmão morreu, a primeira coisa que minha mãe fez foi tentar suicídio. Tive que segurá-la porque ela tentou se jogar na frente de um carro. Ela não aceitava ter que enterrar um filho”. O relato de Luciana mostra as rupturas que as mortes violentas causam nas famílias e nas comunidades. 

Esses traumas são justamente o objeto de estudo do pesquisador José Eduardo Ferreira, doutor em Saúde Pública pela Ufba e autor do livro Cuidado com o Vão: Repercussões do Homicídio entre Jovens de Periferia (Edufba). 

“Todo homicídio gera fraturas nas comunidades. Cada jovem é uma perspectiva de futuro que se perde. Essa fratura se expande a todo o bairro. Muitas vezes acontece o que a gente chama de desterro. Geralmente a pessoa vai embora do bairro por conta do medo. Isso gera o fim do espaço de vivência. As pessoas perdem a territorialidade”, explica ele, que nasceu e mora nos Novos Alagados, no Subúrbio Ferroviário, e hoje faz pós-doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Zidane chegou ao Candeal na adolescência e conhece a bandidagem, mas pegou o caminho da música
Foi o que aconteceu com a mãe de Luciana, que teve que se mudar, e com ela própria, que foi morar no Largo Dois de Julho, mas até hoje convive com o medo.  . “Todos os dias eu tenho medo. Minha família mora no Nordeste e no Subúrbio e todos os dias ligo para saber se estão bem”, conta.

José Eduardo explica que o vão de que trata seu livro é a diferença entre a perspectiva de futuro que a classe média tem e a que existe em comunidades violentas. “Nós queremos chegar aos 60 anos. Eles querem garantir o prato de hoje. É uma diferença entre pessoas que estão lutando para manter projetos de vida e pessoas que estão batalhando para viver. Quem está na marginalidade não tem projeto de vida, tem que sobreviver”, explica.

No ritmo do acaso ( Por Bruno Villa)Zidane já engatilhou revólver, esfumaçou a cuca com todo tipo de droga e andou na companhia da bandidagem. Hoje, ele só machuca os dedos tocando timbau, faz a cabeça apenas com música e reúne compositores para criar as canções de sua banda, a Zap Eletrônico.

Para passar do crime à arte, Leandro Santana Alves dos Santos, 26 anos, o Zidane, ex-integrante da Timbalada, teve uma única oportunidade, oferecida pelo acaso. Desde os 11 anos ele vivia nas ruas da Barra e do Pelourinho e, de vez em quando, ia à casa da avó na rua Afonso Taunay, em Pitangueiras, Brotas. Aos 15 anos, o avô morreu e a família se mudou para o Candeal. “Se eu tivesse ido para outro lugar, minha vida seria outra”, diz. O músico é filho de Peixe Frito, que fez fama como assaltante entre as décadas de 1970 e 1980, mas morreu antes de Zidane nascer. Da mesma forma que o pai, a mãe de Leandro era envolvida com o crime. Ela também já morreu. 

No Candeal, o acaso premiou Zidane, que ganhou o apelido por ser bom de bola. O adolescente se encantou com a Timbalada. Para ver os ensaios, trepava numa árvore. “Via os caras da Timbalada tudo bonito, a comunidade respeitava. Dos traficantes, o povo só falava mal”, lembrou. 

Ele queria começar a tocar, mas enfrentava a desconfiança da vizinhança, que sabia da sua proximidade com os bandidos da área. Mas cinco integrantes da Pracatum resolveram dar uma chance ao adolescente. “Conheci Cinho, Élber, Dedé, Bujão e Furunga. Eles me abraçaram e disseram: ‘a gente vai te tirar dessa’”, afirmou.  

A vida de Zidane mudou em dois anos. Enquanto aos 15 quase foi morto por policiais em um beco da Santa Cruz, aos 17 fez sua primeira viagem como músico para tocar em Nova York, Estados Unidos. Depois, batucou em Barcelona, na Espanha, e Lisboa, Portugal. Em 2005, entrou para a Timbalada. 
No ano seguinte, tocou pela primeira vez no trio e encontrou os velhos amigos. Eles o viram sobre o veículo e o chamaram. “Começaram a apontar, joguei água, energético e refrigerante”, lembrou.  Zidane mantém contato com os velhos companheiros e deixa claro que só quer saber de música. 

Hoje, pai de duas filhas, de 1 e 5 anos, o músico saiu da Timbalada para criar sua própria banda, a Zap Eletrônico - a palavra paz escrita ao contrário. O passado serve de inspiração  para que vislumbre o futuro. “Esses meninos só precisam de oportunidade. Hoje, basta um deles colocar o pé pra fora que o tráfico está em cima”, concluiu.


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